Exílio ou A estranha metade da noite

Tecidos sem corpo, suspensos entre presença e apagamento — formas que persistem na estranha metade da noite.

Exílio ou A estranha metade da noite

Há um momento em que a matéria deixa de pertencer ao mundo e passa a existir apenas como vestígio. Não é ainda memória, mas também já não é presença. É nesse intervalo — instável, silencioso — que estas imagens habitam.

Os tecidos, deslocados da sua função, recusam o corpo que outrora insinuavam. Torcem-se, dobram-se, enlaçam-se numa espécie de linguagem muda, como se procurassem recompor uma forma perdida. Mas o que aqui se constrói não é figura: é tensão. Um resto de gesto, um eco de contacto, uma tentativa de permanência.

A digitalização interrompe o tempo do objeto. Suspende-o. Arranca-o ao uso, ao peso, à escala. O que vemos não é já tecido, mas a sua inscrição — uma pele sem corpo, uma superfície onde a luz se deposita como uma memória incerta. Cada composição parece assim emergir de uma zona intermédia, onde o visível se aproxima do desaparecimento.

Há nestas formas algo de noturno, não pela ausência de luz, mas pela sua qualidade interior. Como se pertencessem a essa “estranha metade da noite” onde as coisas deixam de ser nomeáveis e passam a ser apenas pressentidas. Um espaço de desvio, de deslocação — de exílio.

Exílio não como afastamento geográfico, mas como condição. Estar fora de si, fora do lugar, fora do tempo. As imagens não procuram resolver esse estado; habitam-no. Persistem nele como fragmentos de uma narrativa interrompida, onde cada dobra é uma hesitação e cada sombra um intervalo.

Neste conjunto, a matéria não é representada: é convocada como pensamento. E talvez seja isso que permanece — não a forma, mas a inquietação que a sustém.

2024