Sobre mim

O meu trabalho desenvolve-se desde o início dos anos 90 como uma investigação em torno da imagem enquanto lugar de tensão — entre o real e a sua construção, entre o visível e o que nele se insinua.
Em Blitzkrieg (1991), a partir de macrofotografias de pinturas, surgem paisagens ambíguas que evocam cenários de conflito, num tempo marcado pela guerra dos Balcãs.
Em Narciso ou a estratégia do vazio (1993), a autorrepresentação torna-se um exercício de ausência, um confronto com a identidade enquanto construção instável.
Ritual das sombras (1995) explora ambientes noturnos onde a imagem sugere narrativas possíveis, nunca totalmente reveladas.
Mais tarde, nas séries The Real Thing I (2017) e II (2019), recorro à colagem digital de imagens de diversas origens, construindo composições que interrogam a lógica da sociedade do consumo e do espetáculo.
A partir de 2022, o trabalho digital intensifica-se através da scanografia — o uso da digitalizadora como câmara —, a partir da criação de composições com recurso a diversos materiais, cujas imagens são posteriormente manipuladas, numa prática híbrida onde a materialidade e o processo técnico se cruzam.
Em Suburbs (2022), regresso à fotografia a preto e branco para observar territórios periféricos de Setúbal, enquanto Da minha janela, realizada durante o período de confinamento, fixa um olhar limitado mas insistente sobre o exterior.
Mais recentemente, em Sinais (2024), o corpo reaparece fragmentado — mãos isoladas, emergindo de um fundo negro — como vestígios de comunicação, presença ou resistência.
Desde então, o trabalho tem-se desdobrado em várias direções. A fotografia de rua continua a ser uma prática regular, também no âmbito de um coletivo de fotógrafos. Dela resultou The Street as a Distance (2026), onde procuro observar, no fluxo do quotidiano, esses mesmos sinais de fricção, presença e ambiguidade. Em A Margem da Memória (2025–2026), percorro as pedreiras de mármore da zona de Vila Viçosa, onde a matéria, entre o corte e a permanência, guarda o tempo como vestígio. Em o que dorme (2026), regresso à scanografia: tecidos dobrados sobre o vidro onde, por acaso da luz, parecem surgir rostos adormecidos. E em Circo (2026), acompanho um exercício-espetáculo da escola do Chapitô, com corpos suspensos entre a luz e o escuro.
Visto à distância, este percurso revela uma recorrente inquietação e uma tensão latente que atravessa diferentes fases e meios. Algumas destas séries foram apresentadas em contexto expositivo, integrando esse diálogo entre o trabalho e o olhar do outro.
A imagem surge, assim, não como resposta, mas como campo de instabilidade: um espaço onde o sentido se constrói e se desfaz.