Herbário ou A falha da inscrição
Folhas digitalizadas tornam-se instáveis: entre arquivo e desvio, o herbário falha como preservação e revela a transformação. Não fixa — reinscreve. Cada forma persiste como vestígio em mutação.
.Há um gesto antigo em recolher, classificar, preservar. O herbário nasce desse desejo de fixar o mundo — de conter na superfície de uma folha a forma efémera da vida.
Mas aqui, essa intenção é interrompida.
As folhas, arrancadas ao seu ciclo, não são apenas conservadas: são atravessadas. A digitalização aproxima-as até ao limite, torna visível a sua estrutura íntima — nervuras, transparências, fragilidades — mas, ao mesmo tempo, dissolve a sua estabilidade. O que parecia documento torna-se deriva.
Entre a inscrição científica e a manipulação, instala-se um desvio. As formas repetem-se, fragmentam-se, deslocam-se. Como se o próprio processo de preservação falhasse, revelando não a permanência, mas a transformação contínua da matéria.
Há nestas imagens uma tensão discreta entre o rigor e o acaso. O vegetal, que remete para um sistema de classificação, escapa-lhe. Deixa de ser espécime para se tornar imagem instável — algo entre o vestígio e a invenção.
Este herbário não arquiva: reinscreve. Não fixa o tempo, mas expõe a sua passagem. Cada folha torna-se assim um lugar de transição — onde o natural e o artificial se contaminam, e onde a memória se apresenta como processo, nunca como forma concluída.
2023









Série de 35 trabalhos (21,59 x 29,72cm)