A Margem da Memória
Entre corte e permanência, a matéria suspende-se num estado instável, onde o tempo se inscreve como vestígio e a forma resiste ao desaparecimento.
Entre blocos, cortes e superfícies, a série constrói um território onde a matéria parece deter-se num limiar. Não se trata apenas de um lugar de extração ou transformação, mas de um espaço onde o tempo se torna visível — inscrito nas fraturas, nas repetições e nas formas que persistem.
As imagens articulam-se como fragmentos de um processo que escapa a uma leitura linear. A presença humana surge de forma intermitente, como medida provisória, rapidamente absorvida por uma escala que a ultrapassa. Entre o gesto técnico e o peso da matéria, instala-se uma tensão contínua: aquilo que é moldado resiste, aquilo que se organiza permanece instável.
Nesta margem, a memória não se apresenta como arquivo, mas como vestígio. As superfícies guardam sinais de passagem — marcas de corte, de deslocação, de desgaste — que sugerem uma narrativa incompleta, sempre em processo de desaparecimento. O que se vê não é tanto o que aconteceu, mas o que resta.
Sem se fixar num tempo ou contexto preciso, a série abre-se a uma leitura mais ampla, onde o equilíbrio entre construção e ruína, ordem e desagregação, ecoa uma condição contemporânea marcada pela incerteza e pela transitoriedade. As formas mantêm-se, mas nunca de forma definitiva.
Na margem da memória, tudo parece suspenso: entre permanência e esquecimento.
2025-2026








