Sinais
Antes da linguagem, o gesto. Mãos comprimidas pela superfície tornam-se sinais: vestígios de contacto, inscrições breves onde presença e desaparecimento coexistem. Não comunicam — persistem, como fragmentos de um sentido em suspensão.
Antes da palavra, há o gesto. Antes da linguagem, uma superfície onde o corpo deixa marcas — não para dizer, mas para insistir.
Estas imagens nascem desse lugar primordial. Mãos que tocam, que pressionam, que se deixam capturar pela superfície plana da digitalização. Mas o que aqui se fixa não é a mão enquanto forma reconhecível: é o seu rasto. Um vestígio de contacto, uma inscrição breve onde o corpo se aproxima do apagamento.
O digitalizador não regista apenas — comprime. Aproxima tudo ao mesmo plano, anulando a distância e suspendendo o tempo. O gesto deixa de ser ação e transforma-se em permanência instável. Cada imagem torna-se assim um campo de forças, onde presença e desaparecimento coexistem.
Há nestes “sinais” algo de ambíguo: tanto podem ser leitura como ruína. Fragmentos de uma linguagem que nunca se completa, ou restos de um código já esquecido. As mãos deixam de pertencer a um sujeito. Tornam-se anónimas, quase arquetípicas, como se repetissem um gesto antigo, anterior à identidade.
O que vemos não é comunicação, mas a sua possibilidade. Um limiar onde o sentido ainda não se fixou — ou onde já se perdeu.
Entre a inscrição e o silêncio, estes sinais persistem. Não explicam, não traduzem. Apenas permanecem, como uma forma de resistência mínima ao desaparecimento.
2024









Série de 40 trabalhos. Dimensões: 25x25cm