SO.LE.DA.DE

Fotolivro de homenagem a Soledade Tjaden. Amiga de convicções fortes, mulher das artes e amante da natureza.

SO.LE.DA.DE

2021

[…] por que palavras dizer

que nosso era um coração solitário […]

Ruy Belo, «A flor da solidão»

Imagens de lugares que o autor percorreu repetidamente ao longo de vários meses, este livro de fotografias de José Morujão constitui um caminho pela paisagem do interior da alma. Centrando o olhar sobre as árvores (uma atração que lhe vem de longa data), o autor reforça a unidade do objeto, fixando-o sempre em Lagos, que é, neste livro, ponte para outras viagens, em que o cenário ponteado pela figueira, amendoeira ou oliveira se torna metáfora de solidão, So.le.da.de.

Pode o sentimento ser fotografado? A resposta dá-la-á o leitor, após a perceção demorada das trinta e quatro fotografias que se sucedem neste livro, numa composição baseada em recortes de árvores sobre o plano de fundo de um céu que vai sombreando a tonalidade azul, em construção narrativa.

Reunir fotografias é (re)ordenar o mundo e dá-lo a ver em declinações subjetivas do olhar. Uma vez captada a paisagem que se imobilizou e desgarrou do fluxo do tempo, o fotógrafo revisita lugares de memória, imortalizando momentos e espaços que se percorrem então pelo lado de dentro da existência. É ao avesso da paisagem que este livro nos convida a viajar.

A linguagem fotográfica desta obra dá lugar a um registo de contrastes fortes de sombra e luz, de cor e do seu esbatimento, numa geografia um tanto dramática, em que algumas árvores se destacam do seu conjunto, em closes perturbadores, que conduzem o olhar para texturas densas, enrugadas, nodosas, sobrepostas, que exibem cortes, escorrências, cicatrizes.

Há nestas fotografias uma estética do fragmento, que se anuncia logo desde o título do livro, onde a palavra nos surge fracionada em sílabas. Na composição da imagem, observa-se ainda um procedimento quase fractal, pelo qual se dá corpo a desdobramentos múltiplos de formas que repetem um padrão de ramificações quase labirínticas e produzem efeitos fantasmáticos, quase mágicos, sobre a paisagem. Também a pixelização intencional esbate formas e amplia sombras, criando efeitos de angústia e de tensão.

Em algumas fotografias deste livro, a mancha larga de cor azul ou verde é preenchida por linhas minúsculas, quase filigrana de nervuras, galhos quebrados, fragilidades orgânicas que se expõem ao olhar do leitor como grafia do mundo, como sinais à espera de interpretação. Cinco das trinta e quatro fotografias deste livro aparecem ladeadas por um título que lhes retira a possibilidade de uma leitura referencial. Títulos quase versos, que atiram as imagens para um plano de significação que é necessário perscrutar, demorando o olhar e insistindo na decifração. Porque a fotografia também pode ser poema.

Isabel Morujão

Universidade do Porto/ CITCEM