Tempo

Instalação na Casa da Cultura de Setúbal. Janeiro 2022.

Tempo

2022

A fotografia é, numa certa aceção, o instante que interrompe a continuidade do Tempo e secciona o espaço. As fotografias são, assim, fragmentos isolados do mundo, registados numa superfície bidimensional. São marcas da própria existência. Evidências do real. Uma forma de combater o nada. O nada é o esquecimento. Salva-se do olvido o que se recorda.
Nick Cave e Joan Fontcuberta, afirmam com propriedade que não somos senão memória. Toda a nossa alma e identidade individual dependem da memória e a ela estão intrinsecamente ligadas. A memória vincula o passado ao presente, abolindo o tempo e representando-o em simultâneo. Fotografamos para recordar, para regressar ao lugar em que sabemos quem somos.
Com esta coleção, José Morujão vinca a aptidão primeira do vernacular da fotografia, a qual seja a de eternizar memórias, salvando-as do eterno esquecimento. Mas faz mais: reafirma, a potência do arquivo familiar como material para a arte e para a resignificação das imagens.
A coleção que apresenta é uma manifestação da sua identidade, o resultado de um conjunto de fragmentos, os quais, malgrado a violência do corte fotográfico, permanecem unidos ao significado de que foram separados, num fluxo de passado e futuro que prevalece sobre o instante. São como que parte das peças da construção do ser, do seu ser e, nessa estrita medida, apenas ele as pode significar.
Contudo, vai além desse intento. De facto, o ato de transmitir uma história ou histórias da sua família, serve não só o propósito de manifestação da sua individualidade e da memória afetiva da família, mas dá também lastro à mais ampla memória e acervo histórico da sociedade, onde é possível apurar indumentárias, hábitos, paisagens e espaços de outras épocas ou o que fazia felizes as pessoas, como por exemplo uma ida à praia ou um Fiat 600. Fora do seu contexto original, estas imagens, assumem um significado e uma importância distintos, onde se torna proeminente um modelo histórico de representação de uma memória coletiva, ao invés de um registo de recordações pessoais.
As fotografias que José Morujão nos apresenta, são mensagens para a posteridade, não apenas para os contemporâneos das imagens, mas também para aqueles que embora separados pelo espaço e pelo tempo, são já nascidos ou apenas nascituros que aguardam o seu momento. Somos nós e os que hão de vir.
Assim é que, apresentando-se a fotografia como um duplo do fotografado, José Morujão transfere da esfera privada para a esfera publica este conjunto de imagens, às quais deliberadamente atribui sentidos autónomos e recontextualizados, transmutando-as, por apropriação, num discurso potencialmente distinto, destinado a proporcionar-nos a construção das nossas próprias narrativas. No fundo, convida-nos a estabelecer uma relação da fotografia com a memória e com o imaginário. Na verdade, o convite que nos lança em cada um dos seus painéis de fotografia vernacular, fazendo parte de uma narrativa maior, são de per se, micro ensaios onde se estabelecem diálogos entre personagens, onde se adivinham destinos e se podem imaginar futuros.
Tal como a máquina fotográfica, a máquina de escrever é uma máquina de imaginar. Entre as duas se estabelece uma relação biunívoca, porque das fotografias podemos escrever imagens e das palavras podemos fabricar fotografias.
A máquina de escrever faz-nos, à luz da moderna tecnologia, recuar no tempo, e o que José Morujão nos quer declarar, se bem o entendemos, é que o eu, a identidade e tudo o que somos, resulta do que experienciamos nos livros e nas imagens. Tal como na fotografia, caligrafamos ou alguém caligrafa para comunicar, esculpir, a luz ou a tinta, o que virão a ser memórias, nossas ou de terceiros. As de José Morujão encontram-se nesta instalação, despreocupadas, estendidas no chão por haverem já cumprido a sua função. São parte de si e podem agora ser parte de nós.
Nesta instalação sobrevem a importância da memória e dos pedaços que nos constroem. A necessidade de olharmos para dentro de cada um de nós, de nos confrontarmos com o que somos e no devir, contra o esquecimento e o alheamento a que a sociedade do consumo e do espetáculo, refletida na peça sonora que serve de contraponto às imagens, nos teima em querer envolver. O silêncio é o nosso espaço de reflexão. Evocando, uma das dominantes da vida moderna que tem na saturação de (des)informação um dos seus expoentes máximos, não deixa de nos recordar da necessidade de estarmos atentos e vigilantes, perante as armadilhas do esquecimento e acriticismo. Porque o Sistema nos quer alheados, afásicos e agráficos.
É o que, ironicamente, os dois painéis com tons de azul, nos declaram.

Arlindo Pinto, dezembro de 2021